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O que é deficiência?

A deficiência, segundo o IBGE, que utiliza dados preliminares do Censo Demográfico de 2022 para divulgar essas informações, é entendida como uma condição que pode obstruir a participação plena e efetiva da pessoa na sociedade, em igualdade de condições com as demais pessoas. As deficiências podem ser de natureza física, mental, intelectual ou sensorial e são classificadas em cinco domínios funcionais: enxergar, ouvir, mobilidade, coordenação motora fina, cognição e comunicação.

Perspectiva biopsicossocial

De acordo com uma pesquisa da PUC do Paraná, o modelo biopsicossocial propõe que a saúde, o funcionamento humano e as condições de vida não podem ser compreendidos apenas a partir de fatores biológicos (como doenças ou características físicas). Também se fazer necessário a consideração das dimensões psicológicas (emoções, cognição, relações) e sociais (cultura, ambiente, contexto econômico).

A deficiência, a partir da perspectiva biopsicossocial, surge como alternativa à abordagem biomédica tradicional, que tende a separar corpo e mente, focando apenas em patologias ou disfunções físicas.

No modelo biopsicossocial, por exemplo, uma pessoa com deficiência ou uma barreira de acessibilidade não é avaliada somente pela perda ou limitação em si, mas pelas interações entre:

  • Aspectos biológicos (condição de saúde, características físicas)
  • Aspectos psicológicos (autoestima, expectativas, aprendizagem, adaptação)
  • Aspectos sociais (recursos, tecnologias assistivas, relações, políticas, cultura, contexto institucional)

Essa abordagem possibilita entender por que duas pessoas com a mesma condição física podem ter trajetórias muito distintas. Isso se dá porque o contexto psicológico e social de cada uma difere, alterando a experiência, o impacto e as possibilidades de participação. A partir desta consideração, a antropóloga e pesquisadora Débora Diniz nos convida a refletir sobre a deficiência para além da ideia de limitação física ou sensorial. Para ela, a deficiência é um conceito social e histórico, que reconhece diferenças no corpo, mas também denuncia as barreiras impostas pela sociedade que dificultam ou impedem a participação plena das pessoas.

Durante muito tempo, prevaleceu o modelo médico, que tratava a deficiência como uma anormalidade a ser corrigida ou curada. Essa visão colocava o problema no corpo da pessoa e não no ambiente. O modelo social, defendido por Diniz e por movimentos de pessoas com deficiência, muda essa lógica: o que realmente exclui não é a condição física, sensorial ou intelectual, mas sim as barreiras atitudinais, arquitetônicas, comunicacionais e institucionais presentes na vida cotidiana. Um exemplo dessa mudança de perspectiva vem do movimento internacional da Liga dos Lesados Físicos Contra a Segregação (UPIAS), que nos anos 1970 já afirmava: deficiência não é apenas uma questão de impedimento físico, mas o resultado direto de uma sociedade que não se organiza para incluir todas as pessoas.

Diniz também nos lembra que a deficiência pode ser vista como uma forma legítima de existir no mundo, um estilo de vida que, embora marcado por desafios, é também atravessado por experiências únicas, criatividade e diferentes formas de se relacionar com o corpo e o espaço. Essa compreensão ajuda a romper estereótipos que associam deficiência apenas à tragédia ou à falta.

Em outras palavras, a deficiência não está apenas no corpo, mas na relação entre esse corpo e o meio em que vive. Quanto mais removemos barreiras e promovemos acessibilidade, mais abrimos espaço para a participação de todos em igualdade de condições.

📚 Para saber mais sobre o conteúdo, acesse o material completo de Débora Diniz: “O que é deficiência” (Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense, 2007): O que é Deficiência – Débora Diniz.

Por que não é possível simular a experiência da deficiência?

De acordo com Mariana Rosa, gerente sênior de comunicações corporativas, consultora de diversidade e inclusão, ativista de educação inclusiva e pesquisadora educacional, não há simulação que se aproxime do modo de vida de uma pessoa com deficiência, porque, sendo vida, esta é impermanente e variável ao longo do tempo, a depender do contexto, da cultura, do ambiente e da história de cada sujeito. Sendo a deficiência algo que faz parte da vida de um indivíduo, ela se torna intransferível – o que coloca em questionamento as atividades que buscam trazer a experimentação de algumas horas usando uma cadeira de rodas, uma venda nos olhos ou outro artifício similar.

Segundo ela, embora essa seja uma prática comum, uma espécie de recurso pedagógico para promover compreensão sobre o que significaria ser cego ou ter mobilidade reduzida, esses “exercícios” focam nas supostas falhas dos corpos com deficiência, incapazes de ver, de andar. Mais ainda, apresentam a deficiência como um fato restrito ao corpo, possível de ser capturado e traduzido, como se fosse uma condição estanque e estável.

Dessa forma, ainda que, em alguma medida, essas simulações possam querer reduzir medos ou estigmas, as experiências das pessoas com deficiência ficam tão ausentes quanto as discussões sobre seus direitos, sobre acessibilidade e sobre justiça social.

Ela complementa:

“É um simulacro de uma experiência despolitizada, apresentada mais como natureza do que como cultura. Talvez valha como exercício de imaginação pessoal, limitada a si e ao momento, não como aproximação de uma opressão socialmente produzida, como é a deficiência.”

Às pessoas que têm interesse genuíno em se aproximar da experiência da deficiência, Mariana Rosa sugere uma ação que ela apresenta como revolucionária: a convivência. Ela afirma:

“As simulações podem ser reformuladas para abrir espaço ao diálogo com pessoas com deficiência, nos afetando por elas. Junto a isso, mudar o foco da fantasia da incapacidade do corpo para a realidade da falta de acessibilidade dos espaços, das relações produzidas. Na prática, propor uma dinâmica com uso de fita métrica para medir a materialidade do capacitismo na arquitetura é uma alternativa tão trivial quanto fundamental, por exemplo. Parece que esse pode ser um caminho mais honesto de nos implicarmos com realidades que nos parecem, a princípio, alheias ou distantes. Uma forma de interrompermos o uso da hierarquia dos corpos para legitimar uma distribuição desigual de recursos, de cuidado e de poder, assumindo responsabilidade, ao invés da pena enviesada.”

Para conhecer um pouco mais do trabalho e da pesquisa de Mariana Rosa, acesse suas redes sociais: @marianarosa

Referência de pesquisa:
BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. “IBGE divulga censo sobre pessoas com deficiência no Brasil”. Brasília, DF, 23 maio 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2025/maio/pela-primeira-vez-ibge-divulga-dados-sobre-pessoas-com-deficiencia-no-brasil. Acesso em: 12 nov. 2025.

REDAÇÃO. Modelo biopsicossocial: o fim da separação entre saúde física e mental. Blog Pós PUCPR Digital, Curitiba, 9 jul. 2021. Disponível em: https://posdigital.pucpr.br/blog/modelo-biopsicossocial. Acesso em: 12 nov. 2025.

DINIZ, Débora. O que é deficiência. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 2007.