De acordo com o Tribunal Superior do Trabalho (TST), capacitismo é uma expressão ainda pouco conhecida, mas que traz consigo um problema histórico: a discriminação e o preconceito contra as pessoas com deficiência (PcD). Ela surge do senso comum de que essas pessoas têm todas as capacidades limitadas ou reduzidas, que as vê como não iguais, menos aptas ou não capazes de gerir a própria vida.
Essa compreensão, assimilada socialmente por muitos e muitos anos, acaba por se materializar em atitudes – muitas vezes involuntárias – que contribuem para a exclusão e a opressão de quem é PcD.
Considerando o ‘Dia Nacional da Acessibilidade’ (05/12), o TST lançou a publicação digital (disponível para download): “É capacitismo, e você deve saber – Um miniguia para atitudes que incluam pessoas com deficiência”.
Apresentamos aqui 10 atitudes e expressões que são ofensivas para pessoas com deficiência, seguindo os critérios de seleção da equipe da BBC News Brasil:
Muitas pessoas com deficiência apontam que são constantemente infantilizadas, algo que deve ser evitado ao máximo.
Usar linguagem condescendente e paternalista em conversas com pessoas com deficiência é capacitismo.
Segundo especialistas, ao agir dessa maneira, pais, cuidadores e outras pessoas podem acreditar que estão sendo gentis ou benevolentes quando, na verdade, estão impedindo a pessoa com deficiência de exercer seu direito à independência.
Além disso, deficiência não é doença, e uma pessoa com deficiência não tem necessariamente uma saúde frágil.
Assumir isso ou tratar a pessoa com deficiência como um doente também é uma forma de preconceito.
O Ministério da Cidadania também desaconselha, por exemplo, repetir muitas vezes seguidas uma mesma coisa para pessoas com deficiência, como se elas não estivessem entendendo, ou falar alto com uma pessoa cega (a não ser que ela tenha deficiência auditiva também).

Há quem aponte também a existência de mitos e tabus sobre sexo e pessoas com deficiência.
A atriz Mared Jarman, que ficou cega do olho direito após ser diagnosticada com a doença de Stargardt (uma condição degenerativa associada à perda progressiva de visão) aos 10 anos, escreveu a comédia How This Blind Girl (“Como essa garota cega”, em tradução direta), da BBC, por estar cansada de ver personagens com deficiência retratados como assexuados ou fetichizados.
“É simplesmente ridículo acharem que não temos os mesmos instintos e motivação que qualquer outra pessoa”, disse à BBC.
Dizer que a pessoa com deficiência “é uma guerreira”, “um exemplo de superação” ou que “faz milagres” pode ser considerado ofensivo.
Segundo o TST, o capacitismo se reveste muitas vezes de um sentimento ou de um comportamento de “simpatia” pelas pessoas com deficiência, mas que sustenta uma ideia de subordinação social e econômica.
“Entenda a deficiência como uma possibilidade de vida. Desvincule-a da tragédia”, diz o tribunal.
Segundo Ramos, é sempre bom dar crédito pelo objetivo alcançado, “mas não assumindo que, por conta da deficiência, aquela pessoa não pode fazer algo”.
Tratar a pessoa com deficiência de forma diferente das pessoas sem deficiência pode ser uma forma de exclusão. A deficiência não significa que a pessoa seja menos inteligente ou menos capaz do que qualquer outra. Alguém também não é inferior só porque tem deficiência.
Segundo a cartilha do Ministério da Cidadania, a pessoa com deficiência não tem de servir de exemplo para outras pessoas.
“Claro, você pode admirá-las, mas não as transforme na sua motivação”, recomenda a pasta. “Se é para ser exemplo, que seja pelas atitudes que tem, não é mesmo? Mas não por ter uma deficiência.” Isso vale também para o ambiente de trabalho: a deficiência não torna a pessoa menos profissional que as outras – Não existe uma atividade específica que seja melhor ou pior para a pessoa com deficiência.
“Com as adaptações necessárias no ambiente de trabalho, nem o céu é o limite!”, diz a cartilha.
Ramos ressalta que, em ambientes escolares ou de trabalho, pode ser necessário fazer ajustes para garantir a inclusão, mas isso não significa que aquela pessoa com deficiência seja menos capaz.
Segundo a cartilha do TST, este comportamento deve ser evitado.
Qualquer pessoa precisa de apoio. Por isso, é importante não confundir capacitismo com necessidade de cuidado e auxílio.
O Ministério da Cidadania explica que, no caso de uma pessoa com deficiência que está mostrando dificuldades para atravessar a rua, por exemplo, uma ajuda até pode ser oferecida, mas sem insistência.
“Se a pessoa com deficiência precisar do seu apoio, ela irá pedir (ou a cuidadora dela, se for o caso)”, diz a pasta.
“A pessoa com deficiência não é orgulhosa nem metida se recusar ser ajudada quando você oferecer apoio. Às vezes, ela não precisa mesmo de ajuda.”
A orientação é usar o termo “pessoa com deficiência (PcD)” e nunca expressões como “portador de necessidade especial”, “portador de deficiência” ou “deficiente”.
O termo “pessoa com deficiência” foi definido pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito das Pessoas com Deficiência, aprovada em 2006 pela Assembleia Geral da ONU e ratificado pelo Brasil.
Essa convenção diz que a deficiência é resultante da combinação entre dois fatores: os impedimentos clínicos que estão nas pessoas (que podem ser físicos, intelectuais, sensoriais, etc) e as barreiras que estão ao seu redor (na arquitetura, nos meios de transporte, na comunicação e, acima de tudo, em nossa atitude).
Segundo especialistas, o cuidado com as palavras não é preciosismo, mas faz parte da busca por uma convivência mais civilizada.
“Retardado”, “mongol”, “demente”, “imbecil”.
Esses termos também são totalmente inadequados e ofensivos para se referir a pessoas com deficiência intelectual.
A discriminação é proibida pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/ 2015) e pela própria Constituição Federal.
Também não devem ser usados para pessoas sem deficiências, já que existe um histórico de preconceito associado a essas palavras.
Algumas expressões que muitas pessoas usam no dia-a-dia também são consideradas fruto de preconceito e devem ser banidas do vocabulário.
A expressão “deu mancada”, por exemplo, faz referência a pessoas que têm assimetria na marcha.
Ao associar o ato de mancar com o de cometer erros ou fazer besteira, o termo é considerado capacitista e ofensivo.
Dizer que “não possui braço” para realizar uma tarefa é considerada uma forma de insinuar que uma pessoa que não possui um braço não poderia fazer aquele trabalho ou cumprir a obrigação com qualidade.
“Quem disse que uma pessoa amputada, que não tem um braço ou uma perna, não pode fazer aquela atividade”, diz a superintendente da AACD.
A demência é um termo usado para descrever um conjunto de sintomas que afetam a função cerebral, como problemas de memória, raciocínio, linguagem e comportamento.
Portanto, não é algo que se escolhe ou se finge ter e nem deve ser associado ao comportamento negativo de alguém.
Não ter um braço é uma condição física, não comportamental.
Não ter um braço, portanto, não significa que a pessoa é preguiçosa, menos disposta a ajudar os outros ou apta a assumir responsabilidades.
“Usar essa expressão é dizer que aquela pessoa que não tem um braço está usando isso como desculpa para não fazer alguma atividade”, explica Ramos.

Além do guia, o Tribunal deu início a uma ação de comunicação destinada a alertar sobre atitudes capacitistas. Para o público interno, a proposta é promover um ambiente institucional cada vez mais diverso e inclusivo, atento às demandas da sociedade brasileira. Em relação ao público externo, a ação visa ampliar o alcance das informações sobre o assunto. Por isso, o tema também está sendo abordado nas redes sociais e no canal do TST no YouTube.
A iniciativa ainda se alinha às metas dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que trazem os temas da inclusão social das pessoas com deficiência e da acessibilidade como pautas primordiais.
Para ler o artigo completo, acesse: TST lança guia digital para combater o capacitismo — TRT-MG
Para conhecer os termos corretos para inclusão da pessoa com deficiência, acesse: Terminologias no contexto da Inclusão